(des)equílibrio
Trancou a porta e desceu. Só a memória lhe permitia travar a desaparição. Ou o medo que sentia dela. Olhou o tempo suficiente para todos os pormenores, catalogou os cheiros e marcou-os na mente. Desceu cada degrau com o olhar fixo, com a segurança de quem conhece o que pisa. Já não era a menina que subia as escadas a correr com a mãe, lá mais atrás, a segurar a mala do fim-de-semana nos avós. Hoje, era ela quem descia, cada degrau, com o olhar fixo, e uma mala na mão para a mãe.
Dentro do carro o João esperava-a de cigarro aceso. Não esperava nenhum conforto, não esperava nada daquele rosto impávido, daquelas mãos que um dia se sujaram na areia nas desforras do berlinde. Bateu com a porta do carro. Não disse uma palavra e não aguardava nenhuma em troca. Pousou as mãos no colo e olhou para o relógio. Queria impacientemente ouvir o motor a trabalhar, que algum barulho quebrasse aquele silêncio, também já ele mórbido. Um dedo tocou-lhe na cara. Virou lentamente a cabeça e olhou nos olhos do irmão.
- O que foi isto? – perguntou ele.
- Tocaste-me.
- Sabes porquê?
- Sei. Queres saber se eu ainda existo, tocaste-me para me sentires, para saberes que estou aqui.
- Não foi só isso. Queria-te mostrar a energia dos electrões dos átomos das moléculas das células da minha pele a repulsar a energia dos electrões dos átomos das moléculas das células da tua pele.
- João, vamos embora... Por favor, o pai está à espera.
Fora sempre assim. Desde pequeno. Era em alturas como aquela que ia buscar as suas ciências, a exactidão de pormenores que ninguém conseguia verdadeiramente comportar. O sinal à sua frente movimentava-se em cores. Verde. Amarelo. Vermelho. A impaciência remoía-lhe na barriga.
- Diana, ouve-me. Onde eu quero chegar é que tudo é energia, porque tu, enquanto ser definido, estás-te constantemente a movimentar, a repulsar e a criar energia, seja comigo a tocar-te, seja com o ar à tua volta. Simplesmente não sentes o ar porque é uma sensação tão constante que o teu cérebro despreza. Mas se abrires a porta, e houver uma deslocação do ar, vento, tu sentes! É como o amor da mãe… já o tínhamos desde sempre e parecia menor porque era constante, o nosso cérebro desprezava.
As lágrimas desciam timidamente pela face a baixo. Ela sabia que nem sempre esteve próxima, apesar de tão perto. Sabia que ele tinha razão. Era um amor tão presente que na sua inconsciência às vezes desprezava.
- Tudo, neste Mundo, é energia. Energia é o mais elementar a que podemos chegar. Essas lágrimas que choras, Diana… o que sentes, é energia. Todo o sentimento é um desequilíbrio energético: as tuas lágrimas, o meu toque, o sorriso que era da mãe. Diz-me, o que é para ti viver?
A garganta estava cada vez mais seca. Aquela conversa não era suportável, não agora. Não naquela situação. Limpou as lágrimas da cara e respirou fundo.
- Podes não ter pensado nisso. Mas independentemente do que respondesses, viver é decidir. Repara. Tu construíste toda a tua vida de acordo com o que decidiste, condicionada por algo ou alguém, mas foste TU que decidiste: vires buscar as coisas da mãe, olhares constantemente para o relógio ou para o semáforo, o curso que escolheste… Toda a tua vida é, e foi, um conjunto de decisões. E decidiste vir buscar as coisas da mãe porquê? Pelo que sentes. Pelos sentimentos que te consomem por dentro: tristeza, melancolia… Decides de acordo com o que sentes ou com o que irás sentir se decidires isso. Decidiste vir buscar as coisas dela porque sabias que te irias sentir em paz, mais perto dela.
A noite caía em Lisboa. A avenida que a viu crescer começava agora a descansar. E talvez apenas agora, ela começava a perceber verdadeiramente o sentido da vida. Agora que sentia o seu chão a desabar.
- Tudo, Diana, tudo o que vive, tudo o que sente… eu, o pai, os cães vadios ou a tua gata persa… somos parasitas de energia. Agora, a mãe não é mais do que matéria desprovida desta energia. Lembras-te em Ciências? “Na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma”. Nós, por sermos esses parasitas de energia, transformamos constantemente o mundo à nossa volta. Transformamos a energia criada no big bang e procedemos a alterações dos estados energéticos, a energia já existe, nós apenas a remodelamos.
- João, onde queres chegar? Porquê isto agora?
- O que te quero dizer é que a mais pequena decisão, toque, movimentação de energia, influi a criação de um Mundo completamente novo, é um bocado a teoria do caos: “a borboleta bate as asas em Nova Iorque e chove em Londres”. Piaget e Lavoisier disseram que “tudo tende para o equilíbrio”, os milhares de factores que constantemente te condicionam, que não podes controlar porque são consequências consequentes de outras pessoas espalhadas pelo planeta tendem a equilibrar-se e isso é…
- Energia…
- Isso, Diana… isso. A energia tende para o equilíbrio. Se tu te movimentas aqui, além sofre uma diferença. E Deus… Deus é isso. É a parte integrante da tua vida que tu, como individuo, não podes controlar, mas que influis também por que tomas as tuas próprias decisões e crias o mundo, também tu. Deus é a energia a tender para um equilíbrio. Se em todas as religiões do Mundo, Deus é tudo… Deus está em toda a parte, Ele só pode ser energia. Quanto mais sentires, mais perto de Deus vais estar…
- Quando fechei a porta, gravei na minha memória todos os pedaços da mãe. As palavras, os cheiros daquela casa, reforcei reminiscências de criança… de subir os degraus dois a dois sem cansar, dos tropeções frequentes quando tentava saltar os quatro últimos. Reuni em mim a energia da mãe, João…desinquieta-me o absurdo da morte.
A chave rodou na ignição e entre verdes e vermelhos nada mais que o silêncio estonteante perfurou o ar.
Dentro do carro o João esperava-a de cigarro aceso. Não esperava nenhum conforto, não esperava nada daquele rosto impávido, daquelas mãos que um dia se sujaram na areia nas desforras do berlinde. Bateu com a porta do carro. Não disse uma palavra e não aguardava nenhuma em troca. Pousou as mãos no colo e olhou para o relógio. Queria impacientemente ouvir o motor a trabalhar, que algum barulho quebrasse aquele silêncio, também já ele mórbido. Um dedo tocou-lhe na cara. Virou lentamente a cabeça e olhou nos olhos do irmão.
- O que foi isto? – perguntou ele.
- Tocaste-me.
- Sabes porquê?
- Sei. Queres saber se eu ainda existo, tocaste-me para me sentires, para saberes que estou aqui.
- Não foi só isso. Queria-te mostrar a energia dos electrões dos átomos das moléculas das células da minha pele a repulsar a energia dos electrões dos átomos das moléculas das células da tua pele.
- João, vamos embora... Por favor, o pai está à espera.
Fora sempre assim. Desde pequeno. Era em alturas como aquela que ia buscar as suas ciências, a exactidão de pormenores que ninguém conseguia verdadeiramente comportar. O sinal à sua frente movimentava-se em cores. Verde. Amarelo. Vermelho. A impaciência remoía-lhe na barriga.
- Diana, ouve-me. Onde eu quero chegar é que tudo é energia, porque tu, enquanto ser definido, estás-te constantemente a movimentar, a repulsar e a criar energia, seja comigo a tocar-te, seja com o ar à tua volta. Simplesmente não sentes o ar porque é uma sensação tão constante que o teu cérebro despreza. Mas se abrires a porta, e houver uma deslocação do ar, vento, tu sentes! É como o amor da mãe… já o tínhamos desde sempre e parecia menor porque era constante, o nosso cérebro desprezava.
As lágrimas desciam timidamente pela face a baixo. Ela sabia que nem sempre esteve próxima, apesar de tão perto. Sabia que ele tinha razão. Era um amor tão presente que na sua inconsciência às vezes desprezava.
- Tudo, neste Mundo, é energia. Energia é o mais elementar a que podemos chegar. Essas lágrimas que choras, Diana… o que sentes, é energia. Todo o sentimento é um desequilíbrio energético: as tuas lágrimas, o meu toque, o sorriso que era da mãe. Diz-me, o que é para ti viver?
A garganta estava cada vez mais seca. Aquela conversa não era suportável, não agora. Não naquela situação. Limpou as lágrimas da cara e respirou fundo.
- Podes não ter pensado nisso. Mas independentemente do que respondesses, viver é decidir. Repara. Tu construíste toda a tua vida de acordo com o que decidiste, condicionada por algo ou alguém, mas foste TU que decidiste: vires buscar as coisas da mãe, olhares constantemente para o relógio ou para o semáforo, o curso que escolheste… Toda a tua vida é, e foi, um conjunto de decisões. E decidiste vir buscar as coisas da mãe porquê? Pelo que sentes. Pelos sentimentos que te consomem por dentro: tristeza, melancolia… Decides de acordo com o que sentes ou com o que irás sentir se decidires isso. Decidiste vir buscar as coisas dela porque sabias que te irias sentir em paz, mais perto dela.
A noite caía em Lisboa. A avenida que a viu crescer começava agora a descansar. E talvez apenas agora, ela começava a perceber verdadeiramente o sentido da vida. Agora que sentia o seu chão a desabar.
- Tudo, Diana, tudo o que vive, tudo o que sente… eu, o pai, os cães vadios ou a tua gata persa… somos parasitas de energia. Agora, a mãe não é mais do que matéria desprovida desta energia. Lembras-te em Ciências? “Na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma”. Nós, por sermos esses parasitas de energia, transformamos constantemente o mundo à nossa volta. Transformamos a energia criada no big bang e procedemos a alterações dos estados energéticos, a energia já existe, nós apenas a remodelamos.
- João, onde queres chegar? Porquê isto agora?
- O que te quero dizer é que a mais pequena decisão, toque, movimentação de energia, influi a criação de um Mundo completamente novo, é um bocado a teoria do caos: “a borboleta bate as asas em Nova Iorque e chove em Londres”. Piaget e Lavoisier disseram que “tudo tende para o equilíbrio”, os milhares de factores que constantemente te condicionam, que não podes controlar porque são consequências consequentes de outras pessoas espalhadas pelo planeta tendem a equilibrar-se e isso é…
- Energia…
- Isso, Diana… isso. A energia tende para o equilíbrio. Se tu te movimentas aqui, além sofre uma diferença. E Deus… Deus é isso. É a parte integrante da tua vida que tu, como individuo, não podes controlar, mas que influis também por que tomas as tuas próprias decisões e crias o mundo, também tu. Deus é a energia a tender para um equilíbrio. Se em todas as religiões do Mundo, Deus é tudo… Deus está em toda a parte, Ele só pode ser energia. Quanto mais sentires, mais perto de Deus vais estar…
- Quando fechei a porta, gravei na minha memória todos os pedaços da mãe. As palavras, os cheiros daquela casa, reforcei reminiscências de criança… de subir os degraus dois a dois sem cansar, dos tropeções frequentes quando tentava saltar os quatro últimos. Reuni em mim a energia da mãe, João…desinquieta-me o absurdo da morte.
A chave rodou na ignição e entre verdes e vermelhos nada mais que o silêncio estonteante perfurou o ar.
